Chegamos ao fim de nossa primeira série especial de entrevistas, que teve como temática ilustradores de Pernambuco. Na de hoje, conversamos com Liza Siqueira, designer e publicitária, que possui um traço bem característico em suas ilustrações. Um pouco diferente das entrevistas anteriores, onde os entrevistados atuavam em projetos de game, motion design e quadrinhos, Liza seguiu pelo caminho da publicidade, sem deixar de lado seu universo particular na ilustração. Abaixo você confere o que conversamos:

MarcoZero: Liza, como tu começou a se interessar por desenho?

Liza Siqueira: Eu comecei a desenhar quando era criança. Lembro que minha irmã desenhava muito também, até mais do que eu. Mas com o tempo ela foi largando e eu fui ficando e me interessando cada vez mais. Eu gostava muito de mangás também, acredito que isso influenciou no meu interesse pelo desenho. E até acho que ainda carrego comigo um pouco desse traço.

MZ: E em que momento tu percebeu que dava pra trabalhar com ilustração?

Liza Siqueira: Acho que na adolescência eu percebi que o desenho era realmente o que eu mais gostava. Lembro que no colégio eu não prestava muito atenção nas aulas e ficava desenhando no caderno. Aí pensei nas opções. Além de achar o design muito interessante, vi que esta era uma área em que você poderia desenhar também.

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MZ: Nós achamos tuas ilustrações muito boas pelo fato de serem muito originais. Eu não lembro de ver um traço tão parecido com o teu por aí…

Liza Siqueira: O que acontece é o seguinte: O que eu publico no meu flickr é aquilo que eu gosto de fazer, do meu jeito, dentro do meu universo. Mas na profissão, eu tenho que deixar isso tudo de lado e fazer a ilustração que é necessária.

MZ: Entendo. Teus trabalhos no flickr, teu universo, como foi criar ele? 

Liza Siqueira: Foi tudo muito natural. Eu fui experimentando vários estilos e abandonando vários também ao longo do tempo. O que tem hoje é o que ficou de cada um. Eu passei muito tempo nos mangás, mas também sempre curti muito a Disney. É uma grande mistura. Teve uma época que eu fazia muito desenho digital também. Mas depois eu fui largando porque percebi que já passava tempo demais do meu dia no computador, por causa do trabalho. Passei a valorizar o momento de você se desligar de tudo e fazer arte manual. Gosto do fato de você pegar o papel e o pincel e não ter ‘ctrl + z’. Acho que por isso me fixei na aquarela, além de achar linda a técnica e o efeito que ela tem. Quanto à criação,  já percebi que nas minhas ilustras não faltam elementos florais. Eu considero minha maior fonte de inspiração, a natureza. A variedade de elementos que você pode fazer com folhas e flores. E como você pode inclusive criar as suas próprias “espécies”, como forma de adorno. A cultura russa também é uma inspiração pra mim.

 

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MZ: O que tem a Rússia?

Liza Siqueira: Começou com a Catedral de São Basílio. Um dia eu bati os olhos nessa catedral e pensei: como pode um monumento de 1500 e poucos anos ser tão moderno e tão original? Parecem doces, as cores são fortes, diferentes. Daí, comecei a criar uma certa obsessão pelas torres, passei a desenhá-las bastante e a estudar um pouco da cultura russa. Tem muita coisa pra se observar. As vestimentas culturais que eles usam tem bastante ornamento, me inspira muito. Como sempre curti moda também, as roupas me chamaram atenção. E não é sempre Rússia. Eu gosto muito de história, então quando vejo uma matéria sobre uma tribo descoberta lá na Ásia, ou sei lá onde for, já me interesso. Gosto de ver os adornos, entender a cultura deles.

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MZ: Massa, realmente dá pra sacar isso, essa doçura que tu falou e a riqueza da arquitetura russa. Tua arte “Candy Russia” é linda. Então, vamos continuar nessas tuas influências. Outro personagem que é bem presente lá no teu portfolio são as meninas. Tem alguma explicação para elas? Algumas parecem auto-retrato, né?

Liza Siqueira: Não é proposital, mas as pessoas vivem me dizendo que se parecem comigo. Dizem que estou “me pintando”, mas a intenção não é essa. Acho que desenhar mulher é mais legal porque dá pra trabalhar mais com detalhes. Mas sei lá, talvez isso tenha a ver com meu amor pelos desenhos da Disney, as princesas e tal.

 

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MZ: Tu lembra qual foi teu primeiro trabalho profissional?

Liza Siqueira: Na verdade, minha carreira sempre foi voltada pra publicidade, até porque também me formei nesse curso. Meu primeiro trabalho foi na agência experimental da faculdade. Eu era diretora de arte. Foi uma boa oportunidade porque era uma agência da faculdade, então você ainda tinha a chance de “errar”, por assim dizer. Nós tínhamos um excelente coordenador, o Fernando Fontanella, que sempre estimulava a gente a arriscar e fazer o melhor. Foi muito proveitoso.

MZ: Tu tens alguma dificuldade de atuar no mercado publicitário com esse traço tão característico nas tuas ilustrações?

Liza Siqueira: Para ser diretor de arte não precisa saber desenhar. Ajuda, mas não é necessário. Conheço vários diretores de arte maravilhosos que só conseguem fazer boneco de palitinho.

MZ: Certo, tu tem meio que esses dois universos: a ilustradora de aquarela e a diretora de arte. Na tua opinião, quais são as dificuldades que um ilustrador passa pra trabalhar mais comercialmente?

Liza Siqueira: Temos ótimos ilustradores aqui em Recife, como David Suárez, Pedro Melo, Isabela Andrade Lima… Nossa, um bocado! Cada um tem seu estilo e o mercado os aceita muito bem, justamente pela originalidade de cada um. Você pode ser dois tipos de profissional. O artista e o ilustrador. Se você optar por ser artista, você só vai trabalhar com seu estilo. Se você quiser ser ilustrador, você vai ter que fazer o que o cliente pedir, mesmo que não caia na sua graça. Cabe a você definir o que você quer pra a vida. Nos dois caminhos você consegue ganhar seu dinheiro.

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MZ: Diz outra coisa, como ilustradora ou diretora de arte, quando vem aquela sensação de que um trabalho tá no ponto? Como tu sabes que uma coisa está realmente boa?

Liza Siqueira: É diferente nos dois lados. Como diretora de arte eu preciso botar na mesa várias questões técnicas. “Tá seguindo o briefing? A ideia é boa? Tá bem diagramado? Essa imagem passa o que eu quero passar?”. Se tudo estiver ok, o job está concluído. No caso da ilustração, é puro feelling. Eu não tô me preocupando com as regras de proporção, cores, nem nada. Eu faço do meu jeito e essa é a melhor parte. Eu sou a cliente.

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Para conferir mais trabalhos da Liza, acesse o seu Flickr.

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About Author

Luciano Alpes

Criador e Editor Chefe - Designer Gráfico, sempre foi um curioso da área criativa. Ainda na faculdade, criou o MarcoZero como Projeto de Conclusão de Curso com o propósito de transforma-lo num canal de informação e divulgação da cena criativa/artística de Pernambuco. Maker, divide as funções diárias no design com a participação e a organização de eventos/projetos na área.

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