Este não é um texto para se ler com pré-conceitos. Este é um texto para lermos nus. Portanto, deixe aqui: seus títulos, o sobrenome que você carrega, em quem você votou na última eleição e qualquer alcunha de maconheiro desocupado ou coxinha. Proponho que a gente fale de vivências. De todo conhecimento empírico que nos trouxe até o dia de hoje, até este momento em que escrevo estas palavras e você as lê.

Exposto isso, começo falando sobre como vivo Recife.

MORTE

Foto: Pedro Valadares

Foto: Pedro Valadares

Foto: George Hamilton Paes Barreto

Foto: George Hamilton Paes Barreto

A Recife que eu conheço é uma cidade multicultural e diversificada. Espacialmente isso de desenvolveu através de justaposição de zonas: Zona Sul, Zona Norte, Centro, Várzea e o resto da cidade. Somos assim, imensamente bairristas. Circular de uma zona para outra é um grande desafio, não só de mobilidade, como imediatamente se evidência, mas também de segregação espacial e cultural. A gente sabe bem o que significa as expressões “cada um no seu quadrado” e “Recife é um ovo”. Cada zona do Recife parece carregar um modus operandi próprio, sendo explicita as diversas tribos formadoras da cidade.

Esta dinâmica de ilhas se repete em todas as escalas, refletindo no nosso diálogo com o espaço urbano e com nossas próprias casas. Enquanto que nas zonas de maior poder aquisitivo, Norte e Sul sendo mais especifica, a valorização exacerbada da vida privada em detrimento do uso dos espaços coletivos resulta em cada um no seu à-parte-mento, se me permitem o jogo de palavras, nos bairros de renda mais baixa, e que por tanto investem menos nos espaços particulares, a vida coletiva é mais intensa e a urbanidade mais rica.  A interação entre a vizinhança é tão presente no cotidiano dessas comunidades que a fofoca do dia-a-dia, a conversa da calçada, as peladas no terrenos baldios e os pega-bebos da esquina garantem muitos olhares quando você estiver chegando em casa, apesar de nem sempre essa vigilância social representar qualidade habitacional e salutar ou até mesmo baixos índices de violência, já que sabemos que esses são temas complexos oriundos de outras variantes como marginalização, desigualdade social entre outros que não vamos desmiuçar neste texto.

A discussão aqui é sobre como ainda somos uma população que só ocupa nossa cidade em eventos pontuais como o Carnaval, as festas, os eventos religiosos e culturais, os cocos e maracatus e até mesmo nos protestos e ocupações, cada dia mais crescente e válidos numa cidade democrática. Nossas ruas, praças e pátios ainda são usados para ir de um lugar para outro. Espaços de passagem, de circulação, corredores entre uma bolha e outra, isso quando por sorte conseguimos nos locomover já que já faz parte do nosso cotidiano ficarmos engarrafados no trânsito recifense.

A discussão aqui é sobre como o nosso medo do esquisito faz nossa cidade morrer. Lembro que quando estudava na UFRGS, em Porto Alegre, saia da faculdade às 23h da noite, pegava o ônibus e ia para casa, assim como a grande maioria dos meus outros colegas. Quando cheguei em Recife, sair da UFPE depois das 20h da noite tinha todo um clima de noite de terror. Recife é esquisito, o argumento que mais se escuta.  É gritante o medo da classe média recifense de ocupar a cidade e se evidencia não só nas nossas ruas desertas e sedentas como quando que entramos em contato com outra realidade, com pessoas de outras grandes capitais brasileiras, com índices de violência tão alto quanto os nossos, mas que ocupam a cidade muito mais do que nós. A pergunta que lhos faço é a seguinte, podemos atribuir esse Recife Esquisito somente aos dados de violência ou será que não estamos criando um ciclo vicioso? O Recife Esquisito é como o cachorro faminto que quanto mais você alimenta mais tem fome, é como o animal que come sua própria calda.

Foto: Cláudio Maranhão

Foto: Cláudio Maranhão

Foto: Desconhecido

Foto: Desconhecido

SOBREVIDA

Recife é o reflexo de quem nós somos e nós estamos mudando.

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Foto: Pedro Valadares

O recente crescimento social da população, a iminência dos limites do meio ambiente, a situação caótica de funcionamento de nossa cidade e a descoberta de novos modos de viver coletivamente através das experiências em ocupar espaços de outras cidades mundo afora ou mesmo através da facilidade de acesso a informação são os novos paradigmas que norteiam a discussão de uma nova cidade que se anuncia: Uma Recife Coletiva.

Quando falo em crescimento social estou falando do pai de família que trabalhou durante no mínimo 40 anos e agora finalmente consegue comprar seu automóvel. Falo da dona de casa que juntou e economizou para finalmente ter sua casa própria. Não é superficial demais pedirmos para essas pessoas usarem o transporte coletivo e primarem por moradias mais sustentáveis quando o quadro da nossa cidade ainda é de maleficência desses serviços? É perigoso alegar que o crescimento social dificulta um desenvolvimento coletivo sustentável, mas expondo nesses termos fica mais do que claro que apesar de toda a urgência da questão ambiental e social ainda temos pendencias modernas à resolver.

Esse crescimento social também é um dos responsáveis pela facilidade de acesso à cidades mais desenvolvidas que a nossa. Nunca foi tão fácil viajar pro exterior. Nunca foi tão fácil ocupar a cidade dos outros. A mesma geração que experimentou andar de bicicleta nas ruas de Amsterdã é essa que volta pro Recife e exige que a qualidade de vida chegue as nossas ruas e praças, mas se defronta com a violência urbana e o medo do esquisito e assim vai as ruas reivindicar a cidade que querem viver.

Foto: Maris Senhorinho

Foto: Maris Senhorinho

Todo esse quadro de divergência entre o nosso modo de vida e o contexto global nos faz perceber que, apesar de buscarmos soluções para os nossos problemas em experiências que deram certo mundo à fora; apesar de tendermos a reprodução a la Europa, a la Miami, a la Bogotá, a la são Paulo, de propostas coletivas em busca da cidade em que queremos viver;  nos espelharmos demasiadamente nelas sem levar em consideração o contexto social, politico e cultural único em que estamos é o mesmo que dar um tiro no próprio pé.

É preciso mudar porque somos carentes de vários serviços  e estamos caóticos em funcionamentos mas agora precisamos também levar em conta que estamos inseridos em um contexto global. É preciso mudar porque agora nós temos urgências. Urgência em espaços mais salutares, urgência para resolver as questões de mobilidade, urgência em ser mais sustentável,  urgência em ser mais coletiva, urgência em ser nova valorizando a memória, urgência para resolver nossas questões de cidade moderna e se tornar condizente com os paradigmas atuais da humanidade.

VIDA

Recife é o reflexo de quem nós somos, mas nós queremos mudar de verdade.

Quando escuto a frase  “Você não está no trânsito. Você é o Transito!”  logo concluo que “Recife não é esquisito. Nós somos o Recife esquisito”. Esquisitos porque nós não saímos das nossas ilhas de pseudosegurança e apreciamos essa cidade que ta ai,  todo dia nos convidando à ocupa-la. Esquisitos por acreditarmos que ela vai se ocupar sozinha, ser segura sozinha, ser menos esquisita sozinha, sem a necessidade que mudemos nossos hábitos para que isso aconteça. Esquisitos porque em busca de mais segurança nos fechamos em gaiolas e perdemos a tão estimada liberdade.

Até mesmo esse convívio com o Recife Antigo, o Recife dos nossos pais e avós, deveria nos lembrar que a maneira como entendemos o viver, a maneira como nos relacionamos com a cidade, se reflete em como nossos espaços funcionam, em como a cidade vai se resolver espacialmente para abranger estas nossas atividades. Se primarmos por espaços mais coletivos, reivindicando e realmente usufruindo deles, as possibilidades de interesses particulares é muito menor se sobrepujarem sobre os interesses coletivos será muito menor. Façamos nossa parte! Se é outra cidade que queremos viver, uma cidade mais viva e coletiva, então comecemos saindo de nossa bolhas e pensemos realmente mais coletivo. Ocupar Recife é a única maneira eficaz e a longo prazo de fazer Recife ser Ocupada, Recife não ser esquisita, Recife ser Coletiva. A próxima vez que você for ocupar, andar, circular, interagir, intervir na sua rua espero que tenha isso em mente!

Foto: Thales Paiva

Foto: Thales Paiva

Notas:
1* Entendo que uma das grandes dificuldades de se discutir a questão do espaço público do Recife atualmente é o uso de bandeiras, títulos e mascaras, sintomas da nossa necessidade ainda em embasar nossos argumentos em idiossincrasias institucionalizadas. O intuito de se ler esse texto nu não é separar toda a bagagem racional adquirida durante os anos de doutrinamento no nosso sistema, mas sim deixar em destaque a problemática discutida através dos desmascaramentos dessas facetas que por hora, ao meu ver, parece nos confundir.
2* O titulo Morte e Vida de Recife é uma alusão imediata ao livro Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas de Jane Jacobs, bastante influenciador das minhas ideias sobre urbanismo. Não por coincidência, o livro argumenta as problemáticas das cidades americanas da mesma forma que este texto se propôs a fazer, o que eu chamei de “texto nu”.
3* Não posso deixar de dizer que o titulo também é uma referência a Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto quando se trata da busca por uma melhora de vida em terras recifenses.
4* Os sintomas dessa mudança que o texto menciona são bem explicados em filmes/curtas como Recife Frio, O Som ao Redor e Velho Recife Novo, além de muitos outros que são facilmente encontrados na produção cultural atual do Recife, o que denota novamente que essa mudança é mais do que necessária, ela já está sendo sentida e vivida por muitos.
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Marco Zero

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